sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

De Profundis

Do profundo abismo em que me achei,
E em que não me lembro se caí ou fui precipitado,
Da lama fofa e a ferver de que me cozi, clamei
A vós, Senhor, surdo e infinito:
Sejas tu neste grito
Para todo o sempre louvado.

Sejam vossos ouvidos atentos (ah, Senhor,
Assim se diz, assim seja!)
A voz da minha culpa e do meu nada -
Maior, neste clamor
E na miséria que esse olhar deseja,
Que toda a coisa principiada.

O meu corpo é moído e ardente
Como a areia do deserto
De que o teu vento faz as ondas da cegueira
Rotativa e lunar;
Tenho o meu lado aberto
Por uma lança rasteira,
E não por te imitar.

Aqui, das toalhas da aflição
Pela canalha rasgadas
E em minhas chagas embebidas,
Levanto o meu queixume,
Pura evaporação,
Secada pelo teu lume,
Em sangue e mijo molhadas,

Senhor, que me sujei na força da agonia
E em minhas lágrimas me lavo,
Como um velhinho fazia
No catre do hospital, fedendo a murta e alho bravo -
Uma argália nas partes, algodão num ouvido:
Só por cima da colcha uma mosca o afagava
Enquanto ele chorava,
Todo borrado e comovido.

Sim, daqui, deste abismo trivial
A que só as palavras dão fundura,
A ti clamo.
Abre o meu pedernal,
Que a seca estéril rege;
Monda o vil coração com que te amo
E, ainda que eu fraqueje,
Cava-me até ao fio de água pura.

Abre os seios dos meus ossos
E a cerração tenaz dos meus tendões:
Assim se abrem os poços
Que dão de beber aos leões.

Aí, Senhor, a tua estrela,
Quanto mais podre eu for à tona,
Mais brilhará, profunda e bela
Como o luar e a beladona.

Recebe, Senhor, do abismo
Em que me engolfo e debato,
As lembranças agudas em que me pico e cismo -
Meu remorso barato
Que o tempo vai tornando
Todo em cinza saudosa,
Minhas saudades peneirando
Com uma peneira de rosa.

Ah! Tu, Toiro de Fogo, e eu lesma fria!
Tu, Roda de Navalhas retiradas
Das Sete Dores de tua Mãe!
Tu, Tubarão de Amor, e eu a enguia
Que até as águas estagnadas
Têm!

Tu, Sol cortado a diamante,
Que lavra as terras, aprofunda o dia,
Abre o mar ao navio confiante
E cerra a flor cansada e esguia,

Enquanto eu, o morrão grosso,
Encarquilhado, me escureço
E na fogueira do meu osso
Chamusco tudo o que te ofereço.

Mas, já levado nas areias
De que a minha alma faz moinha
E a tua cólera desdoba,
Hei-de enterrar a dor, farinha
Das minhas sementes feias,
Nos sete palmos de uma cova.

Abre, Senhor, teus flancos: pare-me
(Que tu podes) outra vez,
E a chaga densa
Da minha outra vida sare-me!
A tua mão salgada e imensa
Como todos os mares comunicados
Já ressuscita a tua rês:
Ela me acene,
E à tua divina presença
Suba meus ossos branqueados.
Amen.

NEMÉSIO, Vitorino.  Obras Completas, Vol. I. Poesia. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1989, p. 218-220.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Photoshopia


We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!

T.S. Eliot, “The Hollow men”

 

Um Clique – um Upload – Meu novo Look!
Constante e fiel – Eu tudo Publico –
Com Força – os Maus – sem pena Eu Critico!
Amado sou Eu no Meu Facebook

Exótico homem – rosto Jovial!
Grande Sucesso no álbum da Viagem –
Comentários Espertos à imagem –
“Os africanos sofrem grande mal!”

Perfeito – Noutro Álbum – o Dia-a-Dia –
Sorrisos de Meus filhos Ideais –
Invejosos Bradam Sua ironia!
 
Falo de Sexo sempre Mais e Mais –
Protesto – Converso – não há agonia –
Que alento são as Redes Sociais!

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Cântico Negro

Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

RÉGIO, José. Poemas de Deus e do Diabo.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Determinismo

If there's one thing you can say
About Mankind
There's nothing kind about man
You can drive out nature with a pitch fork
But it aways comes roaring back again
Tom waits, "Misery is the River of The World"


Um Rato recebe seus Choques diários:
Pobre narco-epiléptico – Abstinente –
Vagueia na gaiola torpemente,
Mesmo Ato repetido em Atos Vários.

Continuum de Prazeres Contrários:
O Rato corre intrépido – Demente –
Na ausência Dela a elétrica Corrente,
Gozosos maquinismos arbitrários!...

Enfim, a cobaia comprova a tese:
Lasso, descansa. O nada alucina
A Percepção – Tortuosa Noese –

(Mais Metadona com menos Ruína
Sem um’alma ambiente que lhe pese).
Dorme embalado graças à Morfina!

sábado, 9 de março de 2013

Preguiça de tudo!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Mais Cioran

"A vida não é senão esta impaciência de decair, de prostituir as solidões virginais da alma pelo diálogo, negação imemorial e quotidiana do Paraíso. O homem só deveria escutar a si mesmo no êxtase sem fim do Verbo intransmissível, forjar as palavras para seus próprios silêncios e acordes audíveis apenas a seus remorsos. Mas ele é o tagarela do universo; fala em nome dos outros; seu eu ama o plural. E o que fala em nome dos outros é sempre um impostor. Políticos, reformadores e todos os que reivindicam um pretexto coletivo são trapaceiros. Só a mentira do artista não é total, pois só inventa a si mesmo. Fora do abandono ao incomunicável, da suspensão no meio de nossos arrebatamentos inconsolados e mudos, a vida é apenas um estrondo sobre uma extensão sem coordenadas, e o universo uma geometria que sofre de epilepsia.
(O plural implícito de "se" e o plural confessado do "nós" constituem o refúgio confortável da existência falsa.         Só o poeta assume a responsabilidade do "eu", só ele fala em seu próprio nome, só ele tem o direito de fazê-lo. A poesia se degrada quando torna-se permeável à profecia ou à doutrina: a "missão" sufoca o canto, a ideia entrava o voo. O lado "generoso" de Shelley torna caduca a maior parte de sua obra: Shakespeare, felizmente, nunca "serviu" para nada.
O triunfo da não autenticidade tem seu acabamento na atividade filosófica, esta complacência no "se", e na atividade profética [religiosa, moral ou política], esta apoteose do "nós". A definição é a mentira do espírito abstrato; a fórmula inspirada, a mentira do espírito militante: uma definição encontra-se sempre na origem de um templo; uma fórmula reúne inelutavelmente os fiéis. Assim começam todos os ensinamentos.
Como não se voltar então para a poesia? Ela tem - como a vida - a desculpa de não provar nada.)"

CIORAN, Emil. Breviário de Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011, pp. 31-2.   

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

I Write Like

A brincadeira é o seguinte: você entra no http://iwl.me/ e digita algo seu em inglês. Depois de análises estatísticas, o site diz com qual escrita de um grande autor a sua se parece. Bom, consideraram-me um Lovecraft.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Verniz

Para E.D., com devoção.

I dwell in Possibility - / A fairer House than Prose -  / 
More numerous of  Windows - / Superior - for Doors - // 
Of Chambers as the Cedars - / Impregnable of Eye - / 
And for an Everlasting Roof / The Gambrels of the Sky - //
Of Visitors - the fairest - / For Occupation - This  - / 
The spreading wide my narrow Hands / To gather Paradise -        
E. Dickinson


Habito a Impossibilidade —
Camadas velhas a Descascar —
Tinta sobre Tinta — a Casa 
Envenenada de Sonhar 

De Fotos os Pilares  
As Miríades do Olhar 
Uma Lasca  Folha Caída 
Sua Queda seu Habitar 

Goteiras — Vidros Quebrados 
Telhado por Desabar 
Passa o Verniz — a Grande Mão 
Espaço desfeito — o Poetar 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Toma, "Fukô"!

"Most pernicious of french imports is the notion that there is no person behind a text. Is there anything more affected, aggressive, and relentlessly concrete than a Parisian intellectual behind his/her turgid text?"

PAGLIA, Camille. Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson. New York: Vintage Books, 1990, p. 34.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

auto(meta-poema)retrato

Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l'empêchent de marcher.
Baudelaire, "L'Albatros"

nunca um voo majestoso

das aves
só aprendeu o canto
do corvo

de asas rotas
em cativeiro formadas
molda
sua dupla figura:
estrangeiro em terra firme
dos céus ignoto

escárnio de marinheiros e albatrozes
manquitola
apoiado em exuberantes asas-muleta

suas asas:
art poétique

quinta-feira, 5 de julho de 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012

Noite de Lisboa com auto-retrato e sombra de Ian Curtis - de Al berto



filamentos de gelatinoso néon invadem a catedral
em celulóide do filme nocturno: arquitectura de asas
abóbadas de vento pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem que rasteja
de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo duma geração de subúrbio

e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça
os vidros esfregados nos ombros no peito
onde uma veia rebenta para mostrar o radioso canto

depois dança contorce-se embriagado
cobre o rosto suado com a ponta dos dedos espalha
sangue e cuspo construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno

domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre

a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura
só é perceptível na súbita erecção do enforcado


sexta-feira, 18 de maio de 2012

Do "Livro do Desassossego" II

"Uma das grandes tragédias da minha vida - porém daquelas tragédias que se passam na sombra e no subterfúgio - é a de não poder sentir qualquer coisa naturalmente. Sou capaz de amar e odiar, como todos, de, como todos, recear e entusiasmar-me; mas nem meu amor, nem meu ódio, nem meu receio, nem meu entusiasmo, são exatamente aquelas mesmas coisas que são. Ou lhes falta qualquer elemento, ou se lhes acrescenta algum. O certo é que são qualquer outra coisa, e o que sinto não está certo com a vida.
Nos espíritos a que chamam calculistas - e a palavra é muito bem delineada -, os sentimentos sofrem a delimitação do cálculo, do escrúpulo egoísta, e parecem outros. Nos espíritos a que chamam propriamente escrupulosos, a mesma deslocação dos instintos naturais se nota. Em mim nota-se igual pertubação da certeza do sentimento, mas nem sou calculista, nem sou escrupuloso. Não tenho desculpa para sentir mal. Por instinto desnaturo os instintos. Sem querer, quero erradamente."
PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 385.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012

É tão chique comprar, vez por outra, uma causa revolucionária.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

quarta-feira, 28 de março de 2012

Poema de Heine

A Sorte é uma mulher vadia,
Que não se aquieta no lugar;
Te beija, abraça, acaricia,
Desaparece num piscar.

Senhora Azar é toda amor,
Te prende firme ao coração;
Diz não ter pressa e faz tricô,
Esparramada em teu colchão.

Trad. André Vallias