quarta-feira, 8 de julho de 2009

Branco e vermelho

Estou devendo, há algum tempo, os poemas que trabalhei na palestra sobre poesia. Como são longos, colocarei cada poema em uma postagem diferente. Desculpem-me o atraso e, para aqueles que acompanham este blog, prometo não demorar muito mais para escrever.

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaímento.

Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!

Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)

Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.

Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.

A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.

Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...

E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!

A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaímento.

Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

(Camilo Pessanha, Clepsydra)

5 comentários:

  1. Olá!

    Primeira vez em que me pronúncio aqui, ainda que eu tenha visitado por várias vezes, venho acompanhando os posts e sim, eu gosto.
    Prometo comentar também nas próximas postagens, pouco conheço do Camilo Pessanha e sua Obra, mas já li alguns poemas avulsos, pra lhe ser sincera, gosto muito de "Ao longe os barcos de flores" e "Fonógrafo". Mas, mesmo com minha pobre interpretação "Branco e Vermelho" me parece belo.

    Abraço.


    P.S: Quem sou? Taís, aluna do Filomena, manhã, amiga de Karoline, Jackeline, vivo te importunando durante os intervalos com perguntas e mais perguntas rsrs.

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  2. Oi,
    gostei tanto dos poemas que você falou na palestra que fui em uma biblioteca(depois de tanto procurar), achei o livro do Camilo Pessanha(Clepsydra), gostei ainda mais, porque encontrei o poema "Branco e vermelho", e outros que são maravilhosos.
    Acabei de perceber uma coisa, o livro que peguei na biblioteca, está escrito Clepsidra com "i" e não com "y" da forma que está no blog, como assim? tem duas formas?

    Um pedido!
    Por favor, manda o nome daquele autor, eu não achei, quero muito ver aquele poema de novo, não sei se você vai postar no blog, mas enquanto isso não acontece, eu já tenho o poema em mãos.
    Abraço e desculpa a perturbação.

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  3. o zé, porque tu não coloca um poema teu?! é apenas uma sugestão!

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  4. Para Thaís:

    Seja bem-vinda! Sinta-se à vontade para comentar, criticar, ignorar, elogiar, ou fazer sei lá o quê com os textos desse blog.
    "Fonógrafo" e "Ao longe os barcos de flores" são excelentes. Considero, no entanto, "Branco e Vermelho" a obra máxima de Camilo Pessanha. Isso é gosto pessoal e, na verdade, gosto de todos os poemas que se tem notícia do poeta.
    Até mais!

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  5. Para xjesustopherx:

    a sugestão é boa, não são bons meus poemas.

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